sexta-feira, 9 de julho de 2010

Capítulo V

... ,Stumpff foi tomar seu café da manhã, sempre dando olhadas
de soslaio para tudo e todos. Antes de se servir, verificou xícara,
pires, pratos, cheirou o pão, o café e o leite, e remecheu na
manteiga, schmier e queijo.
E logo que Dona Leopoldina veio lhe servir, Stumpff começou
seu "interrogatório":
- Minha cara senhora, chove muito por aqui?
- Na verdade...
- A senhora morou sempre aqui? É viuva ou solteirona?
Você faz toda a comida ou compra no armazém em frente? Qual o bar
mais frequentado? Você serviu voluntariamente na Grande Guerra?
- Eu...
- Obrigado cara Sputnik!
- Mas eu...
E saiu para fora não comendo, nem bebendo nada. Mas, sem Leopoldina
ver, Stumpff pegou um biscoito de mel, pensou ele que este não poderia
ter nenhuma espécie de veneno.
Na casa de Edvino Seer, estavam todos se arrumando para ir a cidade.
Edvino e Alvício iriam se encontrar com o velho Stumpff, enquanto Antenor
teria que ficar para cuidar da casa. Paulina, com seu filho Aldo,
e Oma Augusta iriam fazer compras no Armazém do Seu Bastião, um italiano
refugiado de guerra de salientes bigodes pontudos. Também iriam
na farmácia de Dona Gertrudes, comprar olina, creolina e óleo de rícino.
Foi difícil fazer com que Oma Augusta saisse de casa. Ela disse que
ninguém podia sair quando o minuano soprasse do sudoeste.
Oma Augusta era uma velha rancinsa, de 79 anos, que dormia no sótão.
Era mãe de Edvino e era conhecida por ser extremamente supersticiosa,
racista ou extremo e por viver dando "pitecos" em tudo o que os outros faziam.
Nunca lavava os cabelos em mês de Agosto, sempre usava saias até os joelhos
e meias longas e folgadas e caregava por baixo delas, sem conhecimento de
ninguém, seu "trabuco", pistola de cano longo, que pertenceu ao seu falecido
marido Karl, que morreu na Grande Guerra. Invariavelmente, usava o seu
xale xadrez vermelho/marrom e sempre tinha
pendurado na ponta do nariz o seu pince nez. E sempre que podia, encontrava
algum defeito em tudo o que as pessoas faziam. Foi dessa maneira que quase
fez Edvino desistir do casamento, porque afirmava que Paulina pendurava as
roupas de maneira errada.
Assim que conseguiram fazer Oma Augusta subir na carreta, se foram,
por entre a velha estrada, em um sacolejar constante.
Depois de um bom tempo de viagem, ainda por sobre as árvores, todos
se abaixaram, alguém havia soltado um tiro. Oma Augusta saltou da carreta,
com seu "trabuco" soltando fumaça, e saiu correndo para a frente da carreta.
Todos olharam para onde ela correu, e ela
estava segurando seu "trabuco" pelo cano, curvada para frente e com a coronha
estava martelando em alguma coisa. Foi quando levantou um gato preto morto pelo pescoço,
e se virou dando risadas assustadoras, olhando para os lados falou:
- Demonio dos infernos, pode mandá quantos capanga tu querê que nenhum
vai me pega!
Depois de Oma Augusta fazer Edvino catar folhas e lenha, queimar o
pobre bichinho, e espalhar as cinzas em formato de cruz, puderam seguir viagem,
sem "perigos" até a cidade.
Chegando lá, mulheres foram as comprar, e homens ao bar do Bíro,
onde haviam combinado encontro com Stumpff.
- Dois canecos de chopp! - pediu Edvino.
- Três, e por minha conta!
Para espanto de Edvino e Alvício, não era Stumpff, ainda, mas sim...

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